Existe uma pergunta que faço sempre que início uma conversa com um novo cliente sobre segurança: "Quantos dos seus administradores globais precisam desse acesso agora, neste exato momento?" A resposta, quase invariavelmente, é um silêncio desconfortável seguido de um número muito maior do que deveria ser.
Vivemos uma era em que o conceito de "administrador" foi banalizado. TI dá acesso global porque é mais prático. O gestor de TI pede um Global Admin porque não sabe ao certo de qual função específica precisa. O fornecedor externo recebe uma conta com privilégios elevados para "facilitar o suporte". E assim, silenciosamente, a superfície de ataque da empresa cresce, não por falha de segurança técnica, mas por um excesso de confiança no acesso.
"O maior risco de segurança nas empresas hoje não é a ausência de firewalls. É a abundância de acesso privilegiado que ninguém revisa e ninguém retira."
O problema que ninguém quer ver
Vamos ser diretos: ter administradores com acesso permanente a todos os recursos críticos da empresa é uma aposta arriscada. Não porque seus colaboradores sejam desonestos, mas porque contas com privilégios elevados são o alvo número um de atacantes, e o alvo número um de erros acidentais.
Pense assim: se um administrador com acesso global tem suas credenciais comprometidas por phishing, engenharia social ou vazamento em um serviço de terceiros. O atacante ganha acesso irrestrito a tudo que aquela conta pode fazer. E o que ela pode fazer? Praticamente qualquer coisa.
Fonte: Verizon DBIR 2025
Fonte: Microsoft MDDR 2024
Fonte: IBM Cost of Data Breach 2024
O pior cenário não é o ataque externo. É o tempo que passa entre o comprometimento e a detecção. Segundo o IBM Cost of Data Breach Report 2024, violações causadas por credenciais comprometidas levam em média 292 dias para serem identificadas e contidas. Durante todo esse período, o invasor não está apenas observando. Está se movendo lateralmente, escalando privilégios, e preparando o terreno para um impacto máximo. E tudo isso fica mais fácil quando as contas já têm acesso permanente e irrestrito.
A armadilha do "é só por precaução"
Existe uma justificativa muito comum para manter administradores com acesso global permanente: "é só por precaução, caso precisemos agir rápido em uma emergência". Essa lógica é compreensível, mas é exatamente onde mora o problema.
Quando o acesso existe permanentemente "por precaução", ele inevitavelmente começa a ser usado de forma rotineira. O mesmo administrador que deveria usar o acesso global apenas em emergências passa a usá-lo para tarefas cotidianas. Não por má-fé, mas porque é mais conveniente do que ativar um acesso específico para cada tarefa.
O administrador tem acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana, mesmo quando não está trabalhando. Uma conta comprometida tem acesso irrestrito por tempo indeterminado. Não há rastreabilidade de por que o acesso foi usado. Auditores e reguladores questionam a postura de segurança.
O acesso é ativado apenas quando necessário, por tempo limitado. Toda ativação exige MFA e justificativa documentada. Funções críticas requerem aprovação de outro responsável. Há histórico completo de quando, quem e por que acessou. Auditores recebem evidências sólidas de controle.
Zero Trust começa pela identidade
A estratégia Zero Trust, "nunca confie, sempre verifique", está no centro de toda discussão séria sobre segurança corporativa em 2026. E o primeiro pilar dessa estratégia, segundo a própria Microsoft e o NIST, é a identidade.
Não adianta investir em firewalls de última geração, EDR, SOC 24h, e deixar que qualquer pessoa com um usuário e senha comprometida possa se tornar um Administrador Global da sua organização Microsoft 365. A identidade é a nova fronteira da segurança. O acesso privilegiado descontrolado é a porta aberta nessa fronteira.
O PIM (Privileged Identity Management, parte do Microsoft Entra ID) é a resposta direta da Microsoft a esse problema. Ele não substitui outros controles de segurança, mas resolve um gap específico e crítico: garante que o acesso privilegiado seja ativado apenas quando necessário, por quem tem autorização, mediante verificação, e por um tempo determinado.
O acesso privilegiado descontrolado não é apenas um problema técnico. É um risco de negócio. Regulamentações como LGPD, ISO 27001 e SOC 2 exigem controles específicos sobre quem acessa o quê, quando e por quê. Sem evidências de controle sobre contas privilegiadas, sua empresa está exposta a penalidades, falhas em auditorias e, no pior caso, a incidentes de segurança com impacto direto na operação e na reputação.
O que muda na prática com o PIM
O PIM transforma a relação entre o administrador e o acesso privilegiado. Em vez de ter o poder constantemente disponível, o profissional solicita ativação quando precisa. Esse pedido pode requerer MFA, uma justificativa documentada, e até a aprovação de um gestor ou outro administrador.
Isso pode soar burocrático à primeira vista. Na prática, o processo de ativação leva menos de dois minutos. O que muda substancialmente é o risco: se a conta desse administrador for comprometida fora do horário de trabalho, o atacante não tem acesso a nada. A conta existe, mas os privilégios estão inativos.
Além disso, toda ativação fica registrada: quem ativou, quando, por quanto tempo, com qual justificativa, e se foi aprovada por quem. Isso cria uma trilha de auditoria que transforma o processo de conformidade, antes baseado em declarações, em evidência concreta e rastreável.
O que você pode gerenciar com o PIM
O PIM cobre três áreas principais no ecossistema Microsoft:
Funções do Microsoft Entra ID: as funções de diretório que controlam o Microsoft 365, como Administrador Global, Administrador de Exchange, Administrador de Segurança, entre outros. São as funções de maior risco e as primeiras que devem estar sob controle do PIM.
Funções de recursos do Azure: os papéis RBAC que controlam assinaturas, grupos de recursos e recursos individuais no Azure. Proprietários de assinatura e Administradores de Acesso de Usuário estão entre as funções mais críticas aqui.
PIM para Grupos: uma evolução que permite configurar acesso just-in-time para membros de grupos de segurança, o que indiretamente controla acesso a aplicações, recursos do Intune, Azure Key Vault e muito mais.
Implementar o PIM é uma decisão estratégica
Muitas organizações postergam a implementação do PIM por entender que é um projeto complexo. É compreensível, pois qualquer mudança na forma como administradores acessam sistemas críticos exige planejamento cuidadoso e comunicação eficaz.
Mas o custo de adiar essa decisão é real. Cada dia que passa com administradores tendo acesso permanente e irrestrito é um dia a mais de exposição desnecessária. E quando um incidente acontece (não "se", mas "quando"), a pergunta dos reguladores, dos conselheiros e dos seguros cibernéticos será a mesma: "Quais controles estavam em vigor para limitar o impacto de uma conta comprometida?"
"Implementar o PIM não é um projeto de TI. É uma decisão de governança que protege a reputação, a continuidade e a conformidade da empresa."
A boa notícia é que o PIM não precisa ser implementado de uma vez. Uma abordagem faseada, começando pelas funções de maior risco, testando com um grupo piloto e expandindo gradualmente, permite que a organização absorva a mudança de forma controlada e sustentável.
O que precisa mudar na sua empresa hoje
Se você é CIO, CISO, ou um gestor de TI com poder de decisão, minha recomendação é direta: comece agora a mapear quantas contas com privilégios elevados sua organização tem, quais delas realmente precisam de acesso permanente, e quais poderiam ser convertidas em elegíveis no PIM.
Você provavelmente vai se surpreender com o número. E ao ver esse número, vai entender por que o PIM deixou de ser uma boa prática opcional para ser um componente essencial de qualquer estratégia de segurança responsável.
Nos próximos artigos desta série, vou detalhar o que o PIM é e como funciona (em linguagem executiva), apresentar um plano de implementação por fases, e fornecer templates prontos para uso em cada etapa do processo. O objetivo é que, ao final da série, você tenha não apenas a convicção de que precisa do PIM, mas o caminho claro para implementá-lo.